Aíla (2016 – Em cada verso um contra-ataque)

A música do agora. Do urgente. Do necessário.

A música que, se não fosse ela, seria anacrônica.

“Em Cada Verso Um Contra-Ataque” – trabalho que a paraense Aíla lança pela Natura Musical, com apoio da Lei Semear – é o disco “do que precisa ser dito”. Por uma mulher. Que cresceu em uma periferia de Belém. E que vive no Brasil. No ano de 2016. E essa mulher, que é Aíla, resolveu que ia fazer um disco político. Da primeira à última faixa. Sem tréguas. E isso é foda.

“Mas é um disco político sem ser panfletário.”

Aí a gente pega esta frase repetida, rasga em mil pedaços e jura que nunca precisará repetir isso. Chega de adversativas, “político” mas, porém, contudo, todavia. Político e ponto. Político porque sim.

Aíla – que gravou agora suas primeiras composições – conta que no seu disco de estreia – “Trelelê”, de 2012 – falava muito de amor e fuleragem, no embalo do pop-tropical paraense. Mas havia uma outra Aíla e essa era ativista, “militante, essas doideiras”, criada na Terra Firme, bairro de Belém estigmatizado por seu cotidiano violento. Uma dos palcos, outra da ruas até que, do ano passado pra cá, ela começou a querer uma nova poesia. “Precisava falar do hoje. Existiam coisas que precisavam ser ditas.” Feminismo, assédio, racismo. Resistência, ocupações, amor livre. Esperança, desigualdades sociais, questões de gênero. E tal. Este disco é o encontro destas duas mulheres.

A primeira que veio foi “Rápido” – uma parceria sua com Roberta Carvalho. Um punk-rock que fala da velocidade do nosso tempo e também de retrocessos. Para produzir o disco, Aíla chamou Lucas Santtana. “Também é politicamente bem inquieto”, lembra. Juntos, foram selecionando um repertório que se encaixasse no conceito. Sem tirar o sotaque tropical da moça, veio chegando um dub, um reggae, um iê-iê-iê, novas levadas.

O disco é pop. Desses que dá vontade de dançar na sala. “Então eu danço, danço, danço. Mas não se engane. Em cada passo há um contra­-ataque”, diz a letra “Clã da pá virada”, música de Posada transformada em um rock que lembra algo das Mercenárias. A música funciona como um manifesto e um pé na porta. A lambada eletrônica delícia “Lesbigay” – composta em parceria com a saliente Dona Onete – fala de um lugar imaginário onde os amores podem ser livres.

“Será” é uma regravação de Siba em que versos como “será que ainda vai chegar o dia de se pagar até a respiração?” ganharam versão dub-reggae. “Tijolo” é mais uma de Posada – um dos nomes da nova geração que anda por aí dizendo o que precisa ser dito. Para falar de negritude, pediu uma música para Chico César. Foi nos bastidores de um show que ele fez para o Movimento Sem Terra. Saquem como nada parece fora do lugar nesta história. “Chico César sempre falou sobre negritude com muita ironia. Acho massa.” Em “Melanina”, um iê-iê-iê megadançante, ela provoca ao jogar na nossa cara que precisamos “urgentemente de um amiguinho de cor”. “E ainda tem uns teclados meio jazz da Etiópia, uns timbre bem loucos”, diz. “#Nãovoucalar” é parceria de Aíla com Felipe de Paula e Mariana Lemos. “Sempre que fui assediada na rua, reagi. Sou briguenta. E queria falar sobre assédio sexual, principalmente no metrô e no ônibus, na hora do rush.” A música, que fala sobre ser arrochada nasceu, vejam só, como um arrocha. Depois ganhou uma batida de funk (carioca) das antigas e ainda uma guitarra de Manoel Cordeiro.

 Quando chega o “O amor é cão”, a gente acha que a moça mudou de assunto, só por um momento. Mudou nada. Afinal, o amor “não esconde a cara, nem pede perdão. Em Uganda ou no Sudão”. Estamos falando sobre amor livre. E sobre países com severas leis que punem relações homossexuais com prisão ou até pena de morte. O brega de Paulo Monarco e Bruno Batista tem, de novo, a guitarra de Manoel Cordeiro. Para fechar o disco, “Você tem medo, por quê?”, de César Lacerda. “Queria fechar o disco com uma esperança. Falar sobre conexões. Despertar essa coragem dentro da gente”. Por motivos que só o capital explica, ficou de fora “Escola de Luta”. A versão para “Baile de Favela” que fala das ocupações das escolas secundaristas será lançada apenas na internet.

Tudo isso faz com que “Em Cada Verso Um Contra-Ataque” seja um disco contemporâneo. Estamos em um tempo em que precisamos ser políticos. Bora sair por aí dançando umas utopias.

Dáumload