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Alessandra Leão (2015 – Aço EP)

capa-rgb-logo2-1024x1024Aço por Chico César

Neste ‘Aço”, todas as canções (cinco) remetem ao corpo vivo que recusa a condição de robô e se rebela pela dança reivindicando sua materialidade e animalidade. Um corpo-limite, reduto do indivíduo e sua autonomia de quem lava o corpo de lã e corre com pata de bicho e nada até “estancar o ar”. Aí em companhia de Dona Odete de Pilar, cirandeira paraibana. A presença de elementos da cultura popular nada traz de ‘folclore’, nada tem de ‘naif’. Sem ingenuidade, é manifestação de autoreconhecimento no território seu, de pertencimento mas não de aprisionamento. É estímulo ao voo e negação de gaiola.

Esse corpo de lã de aço e subjetividade escrevendo-se no espaço mundo espicha-se, desdobra-se, revoluteia, prolonga. Na própria sombra. O que não sou eu ainda é impressão minha a dançar comigo e apesar de mim: a sombra, minha sombra. Assombra-me e ao outro. Esse que me segue ou a mim se antecipa sou eu, no corpo ou no pensamento, no gesto, no sentimento. É, sou.

Cavalo de si mesma, Lady Alê é ela mesma cavaleira que reivindica sua condição de mensagem e mensageira. Sem intermediários. E assim se transporta, se carrega explicitamente sem sela em “Acesa”. Fortíssima ainda a metáfora da Godiva metamorfoseada (ou metaformoseada?) em Ícaro noturno, centauro lunar. Fortíssima e bela.

Ao fim, que sugere imediato recomeço, o vertiginoso “Mergulho” na quebrada das ondas onde nem sereia nadava. Território do improvável só acessível a quem se atira no abismo. A quem se abisma, cisma de ser si mesmo e desamarra o pano que amarra a idéia. Um desatar-se, um autoderramamento. Cada tropeçar, cada levantar aí torna-se passo de dança que as guitarras cigarras acompanham em voo livre…

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Alessandra Leão (2014 – Pedra de Sal EP)

2014 Pedra de Sal - EP (capa)

O Disco Pedra de Sal é o primeiro capítulo do novo ciclo criativo de Alessandra Leão, Língua, que será lançado no formato de três EPs: Pedra de Sal, Aço e Língua. O disco, que tem direção artística de Alessandra e produção musical de Caçapa, é um lançamento do selo Garganta Records em parceria com a YB Music. Dentro da trajetória artística de Alessandra, Língua é um mergulho profundo na construção e desconstrução do seu processo criativo, um salto em direção a uma sonoridade visceral, pessoal e intensa. Em fronteiras que se dissolvem, a música de Pedra de Sal abre-se ao ruído e à fragmentação e reinventa sua relação com a polifonia de matriz africana e com a tradição musical do Nordeste. O primeiro EP apresenta duas composições de Alessandra (Pedra de Sal e Mofo), duas parcerias com Kiko Dinucci (Tatuzinho e Devora o Lobo), além de Doutrina e Toque de Yemanjá, uma recriação de toadas tradicionais do Babassuê de Belém do Pará e do Xangô do Recife (originalmente gravadas pela Missão de Pesquisas Folclóricas, idealizada por Mário de Andrade, em 1938). O disco conta com a participação de Caçapa (guitarra e arranjos), Rafa Barreto (guitarra), Missionário José (baixo), Mestre Nico (percussão), Guilherme Kastrup (bateria e percussão), Kiko Dinucci (voz e guitarra), Juçara Marcal (voz), Sandra Ximenez (voz) e Lurdez da Luz (coro). Tem co-produção musical de Kiko Dinucci e Guilherme Kastrup nas faixas Tatuzinho, Mofo e Devora o Lobo e co-direção artística de Luciana Lyra. O projeto gráfico é assinado por Vânia Medeiros, com fotografia de Tiago Lima e figurino da marca Francisca, de Virgínia Falcão. É o encontro desses pares que expande os limites da música de Alessandra e fortalece o diálogo com outras linguagens artísticas: uma teia de sons, poesia, artes cênicas e visuais. Assim, Pedra de Sal abre espaços íntimos entre linguagens. Espaços de invenção e criação, de transgressão e ruptura. Do íntimo que se pode partilhar. Histórico Alessandra Leão é percussionista, compositora e cantora. Iniciou sua carreira em 1997 com o grupo Comadre Fulozinha e atuou ao lado de músicos como Antônio Carlos Nóbrega, Siba, Silvério Pessoa, Kimi Djabaté (Guiné Bissau), Florencia Bernales (Argentina), entre outros. Em 2006, Alessandra deu início ao seu trabalho autoral, com o elogiado Brinquedo de Tambor. Produzido e arranjado em parceria com o violeiro, compositor e arranjador Caçapa. Em 2008 lançou o CD do projeto Folia de Santo, idealizado, coordenado e produzido por ela. Em 2009, lançou seu segundo CD solo Dois Cordões, com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Federal de Incentivo e produzido por Caçapa. Nesse mesmo ano compôs a trilha sonora do espetáculo teatral Guerreiras, de Luciana Lyra, lançado em livro+CD em 2010. Tem realizado turnês no Brasil, Argentina, Colômbia, França, Bélgia, Portugal e Holanda.

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Alessandra Leão (2009 – Dois Cordões)

Em meio à recente explosão de jovens cantoras cool, urbanas, muitas delas centradas no samba carioca, três anos atrás saltou aos ouvidos de alguns privilegiados o disco de estréia da pernambucana Alessandra Leão, Brinquedo de Tambor.
Ao invés de polimento, suavidade ou as sonoridades mais hype, o CD da ex-integrante do Comadre Fulozinha gritava sua aspereza, revelando também uma surpreendente compositora, com um raro frescor no manejo da música tradicional do litoral e Zona da Mata nordestina. O paralelo mais imediato para situar as referências seria o amigo Siba e sua Fuloresta do Samba, que também escondem por trás de sonoridades ancestrais uma radical atualidade. Mas o disco de estréia, ainda que farto em contrapontos e usando algumas guitarras, ainda era um tanto reverente às tradições de que se apropriava. Pois neste novo CD – Dois Cordões, a coisa amadureceu como se décadas, e não anos, houvessem passado.
Nele, a idéia de arranjo e sonoridade (obra do produtor/arranjador/instrumentista Caçapa) é inseparável do resultado final: uma combinação 100% inédita dos timbres de três guitarras elétricas (de 6, 7 e 12 cordas), em camas quase nunca harmônicas, mas sim complexamente polifônicas. Tecidos sonoros que devem tributo tanto aos estudos eruditos europeus de contraponto e fuga quanto a escuta atenta dos mestres da música africana, igualmente polifônica e não-harmônica.
E essa meticulosa rede de vozes instrumentais é alicerçada à terra não por acaso por um místico (e mítico) trio de ilús: tambores de pela utilizados nos terreiros de Xangô (como é conhecido o candomblé em Pernambuco). E a moldura do disco é essa. Pouco mais, pra dar molho: um pandeiro aqui, caxixis ali, talking drums, güiro, ganzá, eventuais coros.
Só que nada disso seria mais do que curioso ineditismo se, sobre essa tessitura, não flutuasse como ave rara a voz de Alessandra. Uma voz por vezes doce e jovial, por vezes crestada numa alegria ancestral que ecoa essa gente simples dos interiores de Norte e Nordeste, gente que canta porque não sabe não cantar. Essa gente humilde e feliz, feliz de uma felicidade muitas vezes incompreensível para urbanos e/ou sulistas.

 

Mas do que fala essa voz? Sobre o que escreve essa compositora única, que abre as asas sobre o chão de terra e paira sobre o mundo, sobre sentimentos universais, sobre dramas de qualquer cidadão do planeta? Fala de (ser) par, de dualidade, de chegadas e de partidas. Fala de Ogum e de Iemanjá. De amor e violência, fogo e mar, tradição e contemporaneidade. África e América, elétrico e acústico. Tensão e festa. Fala de gente.E é essa, acima de tudo a força desses Dois Cordões. É um disco de gente. Gente falando de gente.

 

Texto: Arthur de Faria

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