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China (2014 – telemática)

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Acho que não é muito normal escrever o release do próprio disco, né?

O natural é que essa apresentação seja feita por um crítico musical, um músico ou um escritor. Mas, dessa vez, eu mesmo queria contar as histórias por trás das canções de telemática, o quarto álbum que lanço na carreira solo, que começou com o epum só (2004), e seguiu com os álbuns simulacro (2007) e moto contínuo (2011).

Em geral, primeiro escrevo a letra em forma de poema, depois vem a música. E como sou péssimo instrumentista, já com a memória um pouco avariada, vou compondo e gravando tudo no computador.

Na pré-produção desse disco, gravei todos os instrumentos, contando claro, com a ajuda da tecnologia para deixar as coisas mais claras para quem veio depois. E quem veio depois? Os meus amigos músicos. Esses caras foram dando ideias, gravando novos arranjos para as músicas e até me incentivando a aproveitar minhas gravações toscas. Por isso, nas músicas detelemática sempre tem algum instrumento tocado por mim. Gravei a maior parte desse disco na minha casa, e o que tenho é um quartinho minúsculo, com um equipamento de som modesto, mas que quebra um galho danado.

Gosto de trabalhar desse jeito e só fui para um estúdio profissional quando precisei de uma turma com mais preparo e equipamentos do que eu. O resultado dessa bem-vinda colaboração coletiva você confere neste álbum.

Agora, te dou uma breve descrição das músicas de telemática.

“arquitetura de vertigem” foi composta em 2010. A frase “recife alcança um céu de concreto armado…” me veio à mente quando percebi que, do prédio para onde eu tinha acabado de me mudar, dava para ver construções semelhantes brotando em outros bairros. O texto que abre a faixa é do jornalista e escritor otto lara resende e foi extraído de uma entrevista que ele deu nos anos 70, quando já se falava da verticalização das cidades. O clipe, que recebeu ótimas críticas, foi selecionado para o festival internacional de videoclipes de paris e para o festival de brasília, em 2014.

“choque pesadelo” nasceu de um papo com o blogueiro e parceiro dos tempos de mtv, pc siqueira, que é um fenômeno de views e likes nas redes sociais com seus vídeos. Fiquei pensando em como a vida dele se dividia entre o real e o virtual. Essa música tem a participação de ilhan ersain (wax poetics) tocando saxofone. Quando comecei a trabalhar em “panorama”, eu tinha apenas o refrão, que lembra uma pegada, vamos dizer assim, mais jovem guarda. Deixei de lado e comecei a compor outra coisa, que acabou virando a primeira parte da música. A letra veio depois, inspirada nas canções de erasmo carlos. Panorama foi lançada como single e ganhou um clipe em formato vídeoletra colaborativo, aberto na internet, com participação dos fãs.

O que eu mais curto em “memória celeste” é o beat eletrônico. Parece que foi tocada por um baterista mesmo e não programada no computador. Jorge du peixe (nação zumbi) já apareceu no estúdio com a letra pronta e sua voz de trovão. O cara ainda deu ideias para o arranjo geral e gravou uma escaleta. “o céu de brasília” tem o baixo de felipe s. (mombojó), que amarra e dá todo o balanço da canção. Fui fazer um show por lá, acordei cedo e saí para andar pelo jardim do hotel. Olhei para cima e constatei que aquele era o céu mais bonito que eu já tinha visto.

“cores novas” é uma parceria com a cantora cyz e o guitarrista andré édipo. Ele chegou com a música, eu tinha a letra, e ela colocou a melodia. Criamos uma espécie de bolero combinando com o poema. Essa faixa tem a participação de luzia lucena e sofia freire, duas jovens cantoras do recife.

Um dia a cantora e atriz karine carvalho me mostrou um pedaço de letra e pediu que eu completasse. Acabei compondo a música também. “outra coisa” só não tinha nome ainda. Eu mandava as várias versões e karine sempre dizia: “se liga que isso é outra coisa”, e assim a canção foi batizada. Quando fomos gravar para valer, achei que a “voz guia”, que eu havia registrado em casa há anos, tinha ficado com muito mais emoção, e decidi deixá-la. Mais vale uma boa interpretação do que todos os recursos tecnológicos disponíveis.

“qtk 63 kaiowa” é uma música instrumental que foi composta por mim e meu irmão, bruno ximarú. Apesar da insistência dele, nunca achei que devia colocar letra, soava mais como trilha de filme.convidei rodrigo lemos e diego plaça (a banda mais bonita da cidade) para fazerem um coro como se fosse um canto meio indígena, meio gregoriano, e lucas dos prazeres gravou as percussões, que segundo ele, remetem aos barulhos da mata e à forma mais tribal de composição musical.

“telemática” é a faixa que dá nome ao disco e surgiu do texto “a fábrica”, do filósofo tcheco vilém flusser. Fala da relação do homem com a máquina, das fábricas com o homem. Lembro que tinha comentado sobre o disco novo com hd mabuse, um dos mentores de chico science, e o cara me mandou esse texto, que acabou me ajudando um bocado na concepção do álbum inteiro. Outro que colaborou com essa faixa, e também com o disco, foi o pesquisador de engenharia de software e referência brasileira no assunto sílvio meira.

“em “subintenções”, criei a base rítmica da canção, usando a bateria de um jeito diferente, inspirado na performance do baterista do can – banda de rock experimental alemã dos anos 70. O baixo que pj (jota quest) gravou só contribuiu para o groove ficar mais sincopado. “realinhar” foi lançada primeiro no mais recente disco do jota quest, funky funky boom boom, e é uma parceria minha com os caras. Resolvi lançar também a minha versão por lembrar que, na época da tropicália, era natural existirem várias interpretações para uma mesma música, como aconteceu com a clássica “baby”.

“olho de thundera” é a música que foi composta de forma mais rápida e também mais demorada. Explico: a música ficou pronta em meia hora, mas levou seis anos para ser, de fato, terminada. Numa jam session com minha banda, yuri queiroga puxou o riff de guitarra e logo vieram a letra e a melodia. Talvez por ter nascido prematuramente, ela ficou guardada por todos esses anos. Na gravação das bases desse disco, yuri iniciou o mesmo riff, demos um tempo na faixa que estávamos gravando, e, como antes, em 30 minutos a música estava pronta.

A faixa mais curiosa desse disco é “frevo morgado”, feita por mim e andré édipo para disputar um concurso de frevo. Encontrei, depois de um tempo, um dos organizadores e comentei que a composição era boa, mas não tinha ficado entre as finalistas. Quando falei o nome da música, fui interrompido de imediato: “china, como é que tu inscreves uma música com esse nome num concurso de frevo? A galera quer frevos pra cima e não frevos morgados”. Se para um concurso não era um título adequado, para um disco ficou ideal. As participações de vitor araújo, vinícius sarmento, públius e deco trombone só deixaram esse frevo mais bonito.

E chegamos ao final das 13 faixas que compõem telemática, meu quarto álbum solo, feito com recursos próprios e muito esforço. Ser artista independente no brasil só tem graça se for assim, com suor, perseverança e paciência para aproveitar tudo no tempo certo.

Por: china

Dáumload 

China (2011 – Motocontínuo)

china-moto-continuoNa Trilha de Moto Contínuo…

Faça suas malas, pois o disco já começa desejando ao ouvinte uma “Boa Viagem”… Essa é a música de abertura de Moto Contínuo, novo álbum do cantor, vj, compositor, produtor… e sei lá o que mais se mete a fazer esse tal de Flávio Augusto, carinhosamente apelidado desde a infância pelas bandas de Olinda como China.

Fazendo um trocadilho matreiro com a praia homônima (Boa Viagem) do Recife, e com um riff matador de guitarra de Bruno ximaru, irmão e parceiro desde a época do Sheik Tosado, essa faixa rasga os tímpanos logo de cara.

Após o enérgico início, chama pra chacoalhar na dançante “Só serve Prá Dançar”, cujo videoclipe teve a colaboração de fãs e admiradoras realmente mexendo as cadeiras. Na faixa seguinte, passa manteiga à la Marlon Brandon original style, costurando o amor na cabeça e no coração em dueto com a doce e marcante voz de Pitty, em “Overlock”, uma linda canção balada.
Agora ficou fácil! Viajou, dançou e passou manteiga… Quer mais o quê? Calma que o cuscuz tá na mesa e tá quente, visse! E segue o rapaz todo trabalhando no romantismo em “Nem Pensar em Você”, falando de arrependimentos e autoestima; ele afirma, com todo balanço e em alto e bom tom, “NÃO VOU FICAR COM VOCÊ”; e devo admitir que é disso que o povo gosta, assim como este fuleiro que aqui vos dirige a escrita.

No próximo número, temos a singular “Mais um Sucesso Pra Ninguém”, com a participação da cantora Ylana Queiroga, uma grata surpresa, que garante o resultado com personalidade. O som de China é amparado por uma superbanda, quase onírica de tão incrível, com variações na formação que conta com Yuri Queiroga, André Édipo, Marcelo Machado, Felipe S. E Martin Mendez nas guitarras, Vítor Araújo e Chiquinho arrasam corazones nos teclados e afins; Vicente Machado e Pernalonga se espalham na bateria; eu, Chico Tchê e Hugo Gila, pilotamos o baixo.

O disco segue no gás com “Distante Amigo”, “12 Quedas” e “Terminei Indo”. Faço aqui um parênteses para falar da participação de Tiê, que traz a macies de sua voz para aveludar os ouvidos e sussurrar com muito charme ao término da canção a frase ÄGORA VAMOS FAZER O VOCALIZE”.

O passeio continua com “Programador Computador” e a pop “Espinhos”, em que China recisita o hard core velho de guerra. No fim, faz uma pausa para homenagear os filhos, Tom e Matheus, na bela e orquestrada “Anti-Herói”.

E é desse modo, cheio, denso e com muita energia que vem aí o trem-bala de 2011: China, em seu segundo disco solo, apontando pro futuro promissor da carreira. E isso é apenas o início… O menino de Bairro Novo ainda vai dar muito o que falar.

Alexandre Salgues-Dengue*
* baixista da Nação Zumbi.

Dáumload

China (2007 – Simulacro)


China é jóia rara. Onde você encontra no mercado um vocalista capaz de berrar como Iggy Pop, cantar baixinho como um fã de João Gilberto, e destilar romantismo jovem guarda – em registro menos inocente – como esse? Em que esquina você esbarra com um frontman capaz de enlouquecer senhoras casadas, jovens virgens e descoladas estudantes universitárias sem apelar para o visual da moda ou ostentar um corpo marombado? E mais: o sujeito sabe trabalhar tão bem no estúdio quanto no palco. E ainda escreve versos certeiros, com refrões grudentos. SIMULACRO (selo Candeeiro) é o seu segundo trabalho solo. Ele que começou ainda garoto, em 97, no bairro Novo, cidade de Olinda, à frente do Sheik Tosado, berrando como um possuído. Que mandou tudo para o inferno e seguiu em frente (“saí porque tinha cansado de fazer aquilo”) em carreira solo. Que tatuou Roberto Carlos na perna e incorporou o parceiro de Erasmo no projeto Del Rey, estimulante mergulho na obra de sua majestade. Que gravou um EP, construiu com os colegas um estúdio caseiro, estudou jornalismo, casou, teve filhos, plantou árvore… Para gravar SIMULACRO, China reuniu um time de primeira: do Mombojó, vieram Chiquinho (teclado), Marcelo Machado (guitarra), Felipe S (violão e guitarra) e Vicente (bateria). Hugo Gila encarrega-se do baixo. Ximarú (irmão de China e o melhor historiador guitarrista da praça), Rafael B (Bonsucesso Samba Clube, bateria) e Pupilo (bateria) completam a lista de convidados. Pupilo assina também a produção. É uma rapaziada de mente aberta, capaz de deslizar sem atropelos por 10 composições que flertam com o psicodelismo, o samba e o rock brasileiro dos anos 60. Mas, atenção: as referências aqui não implicam em nostalgia, saudosismo e coisas do tipo. Este é um CD que sabe o terreno onde pisa: estamos no novo milênio e não em qualquer passado idealizado. SIMULACRO, nesse sentido, comenta (e ironiza) o inevitável (e interminável) flerte com as décadas anteriores da música pop brasileira e internacional. Nem ostenta o fetiche do novo, nem morre de saudades. Atualiza as referências para construir uma sonoridade ligada ao aqui e agora. É o primeiro grande disco da safra brasileira de 2007. Por: Renato L

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