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Combo X (2012 – A Ponte)

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Salve Gilmar Bolla 8! Salve o rei urbano! Salve o guerreiro que atravessou oceanos para desembarcar em Peixinhos! Esse disco é de malungo para malungo, de sobrevivente da “travessia do meio” para sobrevivente das plantações de cana. É música feita por quem teve a proteção dos orixás para vencer correntes e grilhões, desnutrição infantil e racismo, mau olhado e outros males. Porque aqui, meu irmão, na selva de pedra, tudo é mais difícil, é aqui onde o sol queima mais forte e a bala passa mais perto – onde “apenas os fortes sobrevivem”, para citar Grandmaster Flash.

Desse labirinto de concreto só tem um jeito de se escapar. E esse jeito é coletivo, produto do tempo e das multidões, e se chama Cultura, semente poderosa que nutre o corpo sem esquecer a mente. Dela nascem os verdadeiros milagres: o antigo matadouro rebatizado como “nascedouro”, o groove de samba-reggae que se transforma em outra coisa, tão indecifrável na sua mistura complexa que é melhor chamá-lo de Mangue, a loa de maracatu que vira loa de hip hop que vira conto negreiro que vira dança do Majê Molê e se espalha como um vírus pelos cinco continentes.

Combo X é outra dessas invenções destinadas a causar espanto. Como? Mais um produto do eixo Recife-Olinda? Essa “onda” não passa nunca? É, meu amigo, chegou outro disco com aquelas qualidades que fizeram e fazem o bom nome da música pernambucana contemporânea. Tem a riqueza rítmica, tem a competência na execução, tem os arranjos que permitem a cada instrumento respirar e, sobretudo, encontramos novamente uma produção de primeira, assinada aqui pelo grande maestro Bactéria, craque na arte da mixagem, da timbragem e de outras artimanhas de estúdio.

Firme no leme, o comandante Gilmar Bolla 8 possui motivos de sobra para ficar satisfeito com o resultado da viagem. Porque, entre outras coisas, e a gente sabe o quanto isso conta pra ele, esse é um disco que deixaria orgulhoso um velho amigo seu dos tempos da Emprel. O cientista dos ritmos não está mais entre nós, mas o Combo X segue firme para mostrar que o beat perfeito pode muito bem se encontrar em Peixinhos.

Renato L.

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