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Iara Rennó (2013 – Iara)

iara-capaIara Rennó continua inserida em mundo modernista cinco anos após lançar ambicioso primeiro álbum solo, Macunaíma Ópera Tupi (2008), enraizado nos conceitos da obra-prima do escritor paulista Mário de Andrade (1893 – 1945). Em I A R A, arejado disco que a gravadora Joia Moderna vai disponibilizar no iTunes a partir de 1º de novembro de 2013, a cantora e compositora paulista se permite absorver influências do modernista universo Cê sem diluir a personalidade de sua obra autoral. A produção de Moreno Veloso – provável arregimentador de músicos como o habitual baixista Ricardo Dias Gomes, recrutado para pilotar mini-sintetizador eletrônico em I A R A – faz ressoar ecos da estética Cê em alguns momentos do disco, como fica evidente na batida de Outros tantos (Iara Rennó), música também apresentada no álbum em versão mais crua e mais melódica, gravada somente com a guitarra tocada por Rennó. Só que a direção artística da própria Rennó – bem como o fato de a artista pilotar as guitarras e de assinar os arranjos ao lado de Leo Monteiro e de Ricardo Dias Gomes – conduz I A R A a um caminho próprio, impedindo que sua música seja meramente deglutida pelo universo musical de Moreno Veloso, o que anularia a individualidade da cantora. Se Seu José (Iara Rennó, Thor Madsen e Anders Hentze) soa como transamba ao narrar poeticamente o voo existencial da personagem-título que “sentiu coçar o calcanhar / Descolou do chão / Do asfalto se jogou no ar”, Miligramas (Iara Rennó) – composição introduzida por batida tribal – mostra que a artista descende da nobre e transgressora linhagem de Itamar Assumpção (1949 – 2003), artista inquieto que certamente entenderia os códigos das experimentações, ruídos e dissonâncias que pautam Amor imenso (Iara Rennó e Thalma de Freitas) e Estribilho (Iara Rennó), faixas mais herméticas deste disco que dialoga bem com o indie rock, com a poesia concreta – conversa evidente já nos versos de Já era (Iara Rennó), a primeira das 12 faixas do disco – e com as emoções intensas da canção sentimental brasileira tachada de cafona pela elite intelectual à qual I A R A se direciona. Como bem conceitua o compositor paulista Romulo Fróes em texto escrito para apresentar o disco, tais emoções estão embutidas no samba-canção Arroz sem feijão (Iara Rennó), só que liquidificadas pela razão que rege o arranjo que evoca o som robótico do grupo alemão Kraftwerk, um dos pioneiros da música eletrônica. O silêncio que ecoa nos cantos do saboroso Arroz sem feijão desemboca, duas faixas depois, na melancolia ansiosa de Roendo as unhas (Paulinho da Viola, 1973), um outro ponto alto de I A R A por desconstruir sem pudor a elegância do samba torto de Paulinho da Viola para realçar as tensões do tema em clima de pós-punk. Na sequência, Ma voix (Iara Rennó) – música cantada em francês, como sugere seu título – evidencia os personalíssimos caminhos melódicos da obra de Rennó, cuja carreira fonográfica foi iniciada há dez anos com a edição de Composição (2003), primeiro dos dois álbuns do grupo paulistano DonaZica. Já The love (Iara Rennó, Tony Gordyn e Thalma de Freitas) – faixa bilíngue, cantada em inglês e em português, que representa quase um instante de luminosidade pop no disco – remete tanto às transas moderníssimas de Caetano Veloso nos anos 70 quanto às obras de Anelis Assumpção, Céu, Cibelle e outras companheiras de Rennó nessa geração pop contemporânea que tem atravessado fronteiras a partir da cidade de São Paulo. Fechando o álbum, Elegbara (Iara Rennó) desencava a raiz afro embutida nessa macunaímica ópera tupiniquim que ora rege I A R A sob a batuta modernista de Moreno Veloso.

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