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Junio Barreto (2011 – Setembro)

Sete anos levou Junio Barreto para espantar a “maldição do segundo disco”, esse clichezão da crítica musical. Espantou do jeito mais solar que podia. Afinal, o chamado Caymmi de Caruaru – pela voz grave e pela lentidão ao compor – também passou um bom tempo espantando umas e outras desilusões. Quarou a dor no varal: sobrou só o sumo do sangue derramado, virada a mágoa em magia. Pacificado, não por acaso o nome do álbum é Setembro, mês em que o sol volta de longo inverno.

Se a música de Junio aperfeiçoou harmonia e melodia, tornando-as mais intrincadas mas também mais leves, sua poética ficou mais paradoxal. Amante dos diminutivos, o Sosseguim até que não abusa das miniaturas neste álbum, preferindo largar a notória timidez para abraçar termos grandiosos como “império”, “glória” e “paraíso”. E embora a sintaxe das frases seja rebuscada, lembrando Guimarães Rosa e Manoel de Barros, seu vocabulário é naturalista, mínimo, léxico de poeta árcade: a onipresente luz da manhã, o sol, o mar, os ribeiros, a chuva, as matas, os coqueiros, as areias, as tardes serenas, as flores – e, contraditório como o afrosamba se renova no contato com o manguebeat, um jardim elétrico pode rimar com um jardim imperial.

Coisa fina, burilada por Junio e lavrada na bateia de Pupillo, um dos maiores bateristas do Brasil, aquele mesmo, da Nação Zumbi, agora amadurecido como produtor. Pupillo e seu gêmeo, o baixista Dengue, ocupam quase todas as faixas, estreladas ainda por belezas como as vozes de Céu, Marina de la Riva e Luiza Maita, o violão de Seu Jorge, os teclados de Chiquinho e Victor Araújo, as guitarras de Gustavo Ruiz e Junior Boca, a Orquestra Experimental de Cordas e a banda Mombojó, entre muitos talentos da nova música contemporânea brasileira. Tudo forma um conjunto orgânico, tudo se parece com Junio Barreto e também com o samba atemporal, canções que ouvimos como se existissem aí há tanto tempo – como todo setembro, quando chega, depois de tanta espera, espantando o frio com as asas das aleluias.

E então… “Quando alvorada em meus olhos se fez/ refletindo a mais bela manhã”, versos típicos de Cartola, Lupiscínio, Nelson: “Meu céu razão precisa/ realeza de guiar/ em mar de vagar deserto”, prossegue o Sosseguim. Na líquida “Alento da lagoinha”, Junio Barreto encerra seu segundo álbum com um arranjo minimalista – só voz, piano de Vitor Araújo e bateria de Pupillo –, elegância de alvorada a alvorada.

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