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Karol Conka (2013 – Batuk Freak)

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É raro que um disco de rap brasileiro seja lançado com três sucessos de YouTube. Com vídeos oficiais somando quase1 milhão e meio de visualizações no site (se contar os inúmeros vídeos postados por fãs, esse número dobra), a MC curitibana Karol Conka chega ao seu primeiro disco oficial, “BatukFreak”. Esses singles tão importanteschegam aqui em versões turbinadas — sua carta de apresentação em forma de batuque eletro-orgânico “Boa Noite”; seu divertido hino de liberação feminina “Gandaia”; sua declaração de ligação elétrica com a matriz afro-brasileira de “Corre, Corre Erê”. E todas as características indicadas nessas canções — uma saudável mistura entre samples e instrumentação orgânica com batidas digitais ultra-dançantes, o domínio da matriz afro-brasileira — estão expandidas em “Batuk Freak”.
Anteriormente, a combinação de sua personalidade forte e presença energética com o esmerado trabalho de batidas, caça de samples, timbragem e arranjos do produtor Naverendeu apresentações tanto em eventos de arte e tecnologia como o The Creators Project 2012 e até o hypado Bar Secreto, como no circuito nacional de shows de rap, ganhando as atenções de fãs do gênero e de fashionistas ocasionais. O amálgama disso tudo é “Batuk Freak”: hip hop no seu sentido mais primordial, e brasileiro no sentido mais antropofágico possível.
Mesmo pra quem já conhece algumas de suas canções e/ou já viu seus shows, a presença de Karol no disco impressiona. Ela paira como uma entidade sobre os intrincados e maximalistas instrumentais de Nave com a firmeza e alegria que ao mesmo remetem à voz de Georgette e aos eflúvios espirituais de Clementina de Jesus, sem emular nenhuma das duas.
Nave, aliás, após trabalhar por muitos anos construindo hits para Marcelo D2, se eleva como um dos mais importantes e versáteis produtores do país ao criar essa cama de timbres sintéticos aliados a uma noção orgânica da pista de dança. E, por transitar entre diferentes linguagens afeitas à música eletrônica, é um dos álbuns de rap nacional com maior abertura às possibilidades do remix. Pode anotar: você testemunhará as faixas circulando web e pistas afora em versões mutantes no próximo ano.
Para além dos singles apresentados anteriormente, o álbum revela diferentes facetas da personalidade de Karol. “Mundo Loco” é um lisérgico passeio num País das Maravilhas, enquanto “Você Não Vai”, “Bate a Poeira” e “Vo lá”, cada qual à sua maneira, são outros hinos de protagonismo feminino sem os recursos fáceis das palavras de ordem ou os tiques de autoajuda. Não é pouco.
Em “Gueto ao Luxo”, Karol e Nave apresentam ideológica e sonoramente sua solução para um dos dilemas mais caros ao rap brasileiro na atualidade sem se perder no infantilismo útil do consumismo ostentação. E se na slowjam “Que Delícia” e no reggae “Sandália” é a mais doce Karol que se apresenta, na marretada “Olhe-Se”, com participação do MC gaúcho Tuty, é aonde a desconstrução sonora entre harmonia e ruído vai mais longe.
Na atualização das matrizes tradicionais – o diálogo vai até a versão de “Caxambu”, de Almir Guineto, que originalmente arrastava o jongo de volta ao samba – numa dicotomia entre o artificial e o orgânico, “Batuk Freak” é uma superação criativa da distopia-pesadelo que já foi um dia nosso futuro. Karol é como um personagem de William Gibson, unindo periferia e centro, carne e máquina. Para o pai do cyberpunk e para a cantora, o futuro é agora. Seja bem vindo, e divirta-se.
Release por André Maleronka