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Letuce (2012 – Manja Perene)

Anoiteceu na piscina haikai do Letuce. O romance acendeu e pulou a fogueira. Nasce um outro disco, outro material pro drama, o texto lírico-musical do espetáculo. Letícia já no começo convoca as deusas, por ela, pra nós as guias: Pra Passear é a primeira canção, e já estamos na beira da estrada, mirando as casas e fantasiando os seus moradores, esperando o auxílio das tais deusas.

A cena está posta, os refletores e a fumaça rarefeita, Lucas Vasconcellos rege o crescendo sonoro de um finale-apoteose. Um vocalise de outro tempo da Letícia flutua esperançoso em cima do tsunami de som, que ejacula no final. Termina Pra Passear e as cortinas se abrem para MANJA PERENE.

Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos, parceiros na música e na vida compartilhada, levam o romance solar do primeiro disco PLANO DE FUGA PRA CIMA DOS OUTROS E DE MIM pra dentro da noite, saem da piscina e se embrenham na floresta erguida na beira da estrada. No escuro, acendem a fogueira. Onde havia centopéias e lagartas cúmplices, agora circulam misteriosos touro e cabra. Antes, a evolução alentadora de Darwin (Darwin’s Fairy Tale do primeiro disco), mas o mergulho na sombra do inconsciente agora chama Freud (Freud Sits Here).

 

MANJA PERENE é o título que já avisa que aqui não se quer a facilidade do sentido único. MANJA PERENE é o que te der na cuca. E o resto do disco se desfolha assim (outonal? invernal? veraníssimo incandescente?). Adorando a vastidão de enunciados da música dos tons, dos timbres e das palavras: isso não É isso, mas isso E isso E isso E isso E aquilo.

O amor calmo e quentinho ainda brilha em Cataploft, mas já cheio da consciência do desafio do encontro de dois. O casal pede coragem – na própria Cataploft, e na recusa do “medo alimento dos covardes” no solo vocal do Lucas, Areia Fina. Além dessa, Lucas canta sozinho Anatomia Sexual, que assume, apaixonada, que há dor em dividir a cama, e exalta a “onda de comunicação de amor” que é o eixo desse projeto musical em parceria.

Em MANJA PERENE a dupla dança pagã celebrando a libido nas surpreendentes incursões de guitarras estridentes do Lucas e nos novos agudos da Letícia. Nas duas vezes em que a palavra calcinha aparece como ícone potentíssimo: Fio Solto e Sempre Tive Perna (e ainda pra completar o “conjunto lingerie” a própria canção intitulada Sutiã).

Ouvir o disco é se deleitar fantasiando o espetáculo que ele vai engendrar. Encenado pela atriz Letícia Novaes, todos esses signos quando transportados pro palco ganham – ainda que já estejam cheios de – uma outra avalanche de qualidades, e novas tintas pela sua notória grandeza de performer. Em Fio Solto ela, acostumada a cantar o amor e a volúpia a dois, faz o elogio do tesão solitário que, dentro do panorama do disco, só pode sublinhar a importância do auto-prazer para a nutrição de qualquer amor a dois.

Os ruídos ainda estão aqui, as harmonias sinuosas, os grooves, as caminhas sonoras de lençóis macios ou de arame farpado, os arranjos de palavras inesperados, as maravilhas das jóias desencavadas da língua portuguesa: tramóias, balbúrdias, mequetrefes, trauletadas, bacurinhas e cocurutos.

A salamandra entrou na piscina. A fumaça da fogueira é a água evaporada da piscina-ícone do primeiro disco. Lunar, brilhando de dentro do breu, MANJA PERENE crepita.

ARTHUR BRAGANTI

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