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Marcelo Jeneci (2013 – De Graça)

capa

Segundo álbum de Marcelo Jeneci, De graça roça a perfeição pop em repertório que atinge o mesmo alto nível de inspiração do primeiro CD do artista paulista, Feito pra acabar, um dos melhores discos de 2010. Como já havia sinalizado a música-título De graça (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), delícia pop que remete a Caetano Veloso e à efervescência rítmica da fase áurea da música afro-baiana rotulada como axé music, a safra do disco – produzido por Kassin com Adriano Cintra de copiloto – tem cacife para seduzir grandes públicos. A tal perfeição pop – buscada por muitos, mas atingida eventualmente por poucos como Jeneci – molda canções irresistíveis como Temporal, tema composto por Jeneci com Isabel Lenza, nome recorrente na ficha técnica do álbum, parceira de seis das 13 inéditas. Solar, Temporal enxerga luz no fim da tempestade. Disco inspirado pelo fim do casamento de Jeneci, De graça ressalta o valor das coisas boas e simples da vida, até por reconhecer a fragilidade da existência humana, tema de A vida é bélica (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), faixa que exemplifica o flerte do artista com o universo do pop rock entre versos como “O nosso peso é relativo à situação / Nossa leveza é compatível à imensidão”. Tal flerte roqueiro sustenta a leveza de Nada a ver (Marcelo Jeneci), outra canção de perfeito acabamento pop. Contudo, os majestosos arranjos orquestrais do disco encorpam parte do cancioneiro de Jeneci em De graça, impedindo que o CD se limite a oferecer um punhado de hits em potencial (o que já seria um feito digno de aplausos e elogios numa época em que a geração pop brasileira caminha em contínuo descompasso com as massas). Já na primeira faixa – Alento (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), cujos versos receitam a música como o bálsamo capaz de aliviar as atribulações cotidianas – as cordas orquestradas pelo maestro norte-americano Jherek Bischoff sinalizam que, além da perfeição pop, o artista também buscou outros sentidos e sons neste disco. Tais orquestrações encorpam o som da música de Jeneci, sobretudo quando entra em cena o pianista brasileiro Eumir Deodato, arranjador de cinco faixas. Com maestria, Deodato faz com que suas cordas interajam harmoniosamente com a delicadeza da canção Tudo bem, tanto faz (Marcelo Jeneci, Laura Lavieri e Arnaldo Antunes), uma das duas músicas soladas por Laura Lavieri neste disco em que a sintonia dos vocais de Lavieiri com a voz de Jeneci contribui muito para o alcance da tal perfeição pop em faixas como O melhor da vida (Marcelo Jeneci e Luiz Tatit), tema de atmosfera leve que prega o bem-viver (“O que vale nessa vida é ver como você aproveita / Desde a hora que levanta até a hora que deita”). O outro solo de Lavieri acontece em Pra gente se desprender (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), música cheia de camadas, adensada de forma sublime pelas cordas orquestradas por Deodato. Tal densidade já havia sido sinalizada na faixa anterior, Um de nós (Marcelo Jeneci), canção que expia com resignação a dor da separação, com ciência de que um novo amor virá, como explicitado em letra da citada Pra gente se desprender entre versos como “E a cada ponto final / A história vai repetir / A gente é mais que um plural / E a vida é muito mais / Que a gente espera”. Deodato reitera sua maestria ao arranjar a música que encerra o disco, 9 luas (Marcelo Jeneci e Raphael Costa), como peça sinfônica que atinge o céu em atmosfera etérea. Cada vez mais desenvolto como cantor (ainda que seu canto remeta ocasionalmente ao de Caetano Veloso, como em Sorriso madeira, canção de espírito pop tropicalista feita sem parceiro), Jeneci leva sua voz para regiões mais altas em 9 luas, fecho sublime para um disco que o confirma como um dos grandes compositores brasileiros do século XXI. As influências retrôs – Jovem Guarda, Caetano Veloso e até doo-wop, evocado na arquitetura de Julieta (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza) – estão todas lá, reprocessadas antropofagicamente com linguagem contemporânea sem anular a personalidade de Jeneci como excepcional compositor. “Além de mim / Não tem ninguém / Que seja eu”,  sentencia o cantor, enfatizando a individualidade humana com reforço de coro festivo, em Só eu sou eu (Marcelo Jeneci e Arthur Nestrovisk), outra delícia pop deste álbum (patrocinado pelo projeto Natura Musical) que chega às lojas em novembro – em edição do selo Slap (da gravadora Som Livre) – já se impondo como um dos grandes discos do ano de 2013.

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Marcelo Jeneci (2010 – Feito pra acabar)

É no mínimo curioso que Marcelo Jeneci tenha sido acompanhado nas últimas apresentações por Tulipa Ruiz, quem já podemos chamar nesta reta final de a grande revelação da música brasileira em 2010. Não só porque Jeneci é a outra revelação do ano, mas também porque os trabalhos de ambos se relacionam de tantas maneiras que não seria forçado imaginar que essas semelhanças fossem premeditadas.

Por exemplo: se Tulipa, no início de 2010, nos dava o disco brasileiro mais perene do ano e chamava-lhe de “Efêmera”, o que dizer de Jeneci, que agora, praticamente nos acréscimos, entrega um dos melhores discos de 2010, cujo título é Feito pra Acabar? O que parece uma coincidência nesse tema do perecível parece ser, na realidade, apenas a expressão natural de uma ligação muito mais forte entre os dois, que culmina nas participações de cada um nos shows do outro.

Obviamente, “Feito Pra Acabar” não é igual a “Efêmera”. É com semelhanças e diferenças e acertos e alguns enganos – entre eles essa péssima capa – que Jeneci faz um dos grandes álbuns do ano. Um disco que, se não se sustenta imediatamente como clássico ou impecável, tem – além de um indiscutível conjunto de bons arranjos, composições e produção – o mérito de apontar ou refletir sobre caminhos da música independente brasileira que até então se encontravam mais desapercebidos.

Esses caminhos se revelam dentro e fora das gravações. Por exemplo, antes de “Feito Pra Acabar”, Jeneci já havia tentado uma aproximação com a música pop de massas (seja lá o que isso for), compondo músicas que tocaram em novelas, tanto com Vanessa da Mata (em “Amado”), quanto com Arnaldo Antunes (em “Longe”). Aliás, esses três – junto com outros como Kassin, Curumin e Fernando Catatau – têm ensaiado a criação de uma música que, sendo pop, não abdica de um som e de uma composição mais próximos ao circuito independente brasileiro, e que tenha entrada e agrade a um espectro de ouvintes maior do que os que compõem essa cena, digamos, indie. Junto com Iê Iê Iê, disco de 2009 de Arnaldo Antunes, “Feito Pra Acabar” é o trabalho que melhor se aproxima de produzir algo que dialogue com esses dois públicos nem sempre muito distinguíveis.

Não à toa, das treze composições do álbum, seis são dividas entre Jeneci e Arnaldo. Além disso, há composições com Chico César, José Miguel Wisnik e Luís Tatit, pra ficarmos somente em outros três compositores pouco próximos da música independente. A participação desses artistas em “Feito Pra Acabar” também revela uma ligação pública, que tem se refortalecido cada vez mais, entre gerações distintas da música brasileira e cujo benefício vai muito além de um simples intercâmbio de público ou de uma turnê Caetano & Maria Gadú.

Apesar disso tudo ser interessante, é dentro do estúdio que Feito pra Acabar mostra sua relevância. Com composições maduras, letras e arranjos belíssimos, o disco por vezes beira sem medo o clichê e se sai extremamente bem. Jeneci tem na sua composição uma leveza incomum, é singelo sem parecer imaturo e, principalmente, inocente sem ser ingênuo. Isso vai muito além dos arranjos e das letras, especificamente. Por exemplo, a voz de Jeneci é completamente limpa e por vezes soa quase adolescente. Longe disso ser problema ou defeito, ela se se relaciona perfeitamente com as composições e seus arranjos, seja nas orquestrações mais conservadoras ou nos barulhinhos bons que pontuam aqui e ali todo o disco, muito bem produzido por Kassin. E, por falar em voz, a presença de Laura Lavieri nos vocais de várias músicas beira a perfeição e reforça essa ideia de que “Feito Pra Acabar” busca uma inocência quase primal, sem soar inexperiente ou falso.

Há ainda outros caminhos apontados nas músicas de “Feito Pra Acabar”, como a experimentação de timbres ou mesmo de gêneros brasileiros desconsiderados, seja por esquecimento ou preconceito, pela maior parte da atual produção independente brasileira, geralmente mais interessada no que anda rolando no Brooklin. O que dizer do “solo” de safona que antecede a guitarra bem no meio de “Copo D’água”, uma das melhores músicas do ano? Ou o que pensar de músicas de temática ou arranjos sertanejos como “Pra Sonhar”, “Show de Estrelas” (repare no nome!) ou Tempestade Emocional? Ou, ainda, o que dizer da introdução de Pense Duas Vezes, que se coloca ao lado do melhor rock produzido por Garotas Suecas, Apanhador Só e Nevilton em 2010? E o que dizer de “Quarto de Dormir” (e “Longe”), em que Jeneci e Arnaldo revivem como compositores os melhores momentos de Roberto e Erasmo?

Ao longo de todo o disco, parece nos acompanhar essa consciência incomum de Jeneci sobre a música brasileira e seus becos sem saída atuais. Muito provavelmente, nunca antes na história desse país tivemos tanta gente produzindo música. Como, então, a maior parte do público brasileiro não entra em contato com essa grande parcela da produção musical? Será a sina de uma geração que, numa espécie de twitter, canta pra milhares que não não se interessam em ouvir?

Em certos momentos, Jeneci parece falar sobre essa geração e sua dificuldade em ser ouvida, como na letra de “Por Que Nós?”: “Éramos célebres, líricos / Éramos sãos / Lúcidos, céticos / Cínicos, não / Músicos práticos / Só de canção / Nada didáticos / Nem na intenção / Tímidos típicos / Sem solução / Davam-nos rótulos / Todos em vão / Éramos únicos / Na geração / Éramos nós dessa vez / Tínhamos dúvidas clássicas / Muita aflição / Críticas lógicas / Ácidas, não / Pérolas ótimas / Cartas na mão / Eram recados / Pra toda a nação”.

Jeneci tem recados pra toda a nação. Seria bom que o ouvissem.

Por BloodyPop

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