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Mestre Salustiano (1998 – Sonho da Rabeca)

Uma das maiores instituições da cultura popular pernambucana, Mestre Salustiano, ou Mestre Salu, como também é conhecido, chega aos 50 anos de carreira com o reconhecimento de ser um dos principais responsáveis pela preservação da ciranda, do coco, do caboclinho, do cavalo-marinho, do maracatu, entre outros folguedos, e pela atual valorização da rabeca e da viola brasileira.

Oriundo do município pernambucano de Aliança, região da Zona da Mata, Mestre Salu, ou ainda, o Mestre do Maracatu Piaba de Ouro (em Pernambuco existe por volta de 80 grupos de maracatu rural), como é internacionalmente conhecido – ele já se apresentou em Cuba e diversos países da Europa –, é hoje uma das maiores autoridades e referência para os novos artistas em Pernambuco, além de um dos grandes responsáveis pela preservação da memória cultural nordestina. Nomes como Antônio Nóbrega e Siba (integrante do grupo Mestre Ambrósio) já beberam de sua fonte. Hoje são dois exímios rabequeiros. A rabeca é um tipo de violino popular que, em vez de ser apoiado no queixo, como o próprio violino, é apoiado no ombro. Mestre Salu é considerado um dos maiores do instrumento em Pernambuco, além de fabricá-lo com a paciência e sabedoria dos grandes luthies.

Ex-cortador de cana-de-açúcar e natural da Zona da Mata Pernambucana, Mestre Salu passou a infância entre os brincantes de maracatu. Foi morar em Olinda (PE) com 19 anos: “Já tou com 38 anos em Olinda e me sinto já filho de Olinda. Recebi o título de cidadão de Olinda e hoje eu sou gente de Olinda. Eu vim praqui para aventurar a vida. Eu já tinha uma arte na minha vida e minha idéia era crescer com a minha própria arte, com o reconhecido saber que eu tenho. E graças a Deus, tá chegando meu objetivo”, conta Salu. Continuando diz, “aqui o povo já conhece meu talento e eu já me inspiro no que eu gosto de fazer, como tocar, cantar, improvisar, confeccionar rabeca, os personagens de bumba-meu-boi, os bonecos do mamulengo… Isso tudo aprendi a fazer e passo para meus filhos. Aqui tive meus 15 filhos e, deles, nove estão envolvidos nessa arte. Pra mim isso é maravilhoso. Tudo toca na banda, faz show fora com Nóbrega, dá aula de dança… Isso tudo é maravilhoso”, reforça.
Ao longo de sua vida, Mestre Salustiano sempre curtiu o carnaval. “No carnaval eu gosto de todas as atividades populares. Nunca tive paixão por uma coisa só não. Sempre tive paixão por tudo. Maracatu, caboclinho, coco, frevo, bloco, ciranda…Tudo é carnaval! O cara que tem paixão só pra uma coisa, não adianta ser carnavalesco. Ele tem que valorizar tudo. Eu mesmo já brinquei muito em Olinda, nas ladeiras”, conta.

Sobre sua arte, ele diz: “Eu crio na hora. Não tenho dificuldade. Quando a gente cria, nunca esgota o que tem. A gente quando cria por conta própria, é uma fonte que é difícil secar. É coisa para a gente ser vitorioso sempre”.

Mestre Salustiano está hoje com 61 anos. Um de seus momentos de glória foi através de seu CD Sonho da Rabeca, de 98, que traz maracatu, cavalo-marinho, forró pé-de-serra, coco, samba, marchas, entre outros ritmos, em que Ariano Suassuna assinou o texto da contra-capa. “Hoje, compositores e intérpretes como Roberto Corrêa e Luís Eduardo Gramani percebem o que significam a viola para a música brasileira. Mas, o trabalho desses eruditos não teria um alicerce sobre o qual se apoiar se não existissem artistas como Mestre Salustiano… Das músicas do Mestre, chamo atenção para as Toadas de Cavalo Marinho e o Maracatu Rabecado. Foram peças como estas que me levaram a incluir Mestre Salustiano, ao lado de Villa-Lobos, na criação do espetáculo “A Demanda do Geral Dançado”, hoje conhecido e elogiado no Brasil inteiro”.

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