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Os Tincoãs (1973)


É sabido por todos que a Bahia é o mais negro estado brasileiro. Nossas raízes culturais se confundem de tal forma como nossos antepassados africanos que podemos inclusive dizer sem receio que praticamente inexiste uma tradição cultural branca na Bahia. Em todos os segmentos que norteiam a cultura baiana, está a presença forte de nossos irmãos africanos. Basta para isso irmos da culinária, às vestimentas, danças, religiosidade e, é claro, na música. Geograficamente um dos maiores redutos de negros na Bahia concentrou-se na região do recôncavo, tendo a cidade de Cachoeira, às margens do Rio Paraguaçu, como maior referência. Quem a conhece pode observar tradições centenárias como a procissão da Boa Morte, misturada a rituais católicos, bem como apreciar uma boa apresentação de samba de roda com os artistas locais. A riqueza cultural dessa região trouxe muitos frutos para a cultura brasileira, como os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia, Raimundo Sodré, Roberto Mendes – todos de Santo Amaro da Purificação – e o trio vocal Os Tincoãs de Cachoeira, que conquistou o Brasil com a beleza e harmonia de suas vozes, bem como a excelência de seu repertório.

Formado inicialmente por Erivaldo, Heraldo e Dadinho, todos de Cachoeira, os Tincoãs – cujo nome é originário de uma ave que habita o cerrado brasileiro – iniciou sua carreira em 1960 no programa da TV Itapoã “Escada para o Sucesso”, interpretando canções, em sua maioria boleros, inspirados no sucesso do Trio Irakitan. Chegaram inclusive a gravar um disco intitulado “Meu último bolero”, sem alcançar o êxito esperado. Em 1963 Erivaldo desligou-se do grupo e a este foi incorporado outro componente, Mateus, que com os demais formaria a base principal do conjunto. Renovaram o repertório e partiram para adaptar os cantos de candomblé, sambas de roda e cantos sacros católicos. Mas foram os terreiros de Candomblé que deram a base principal da musicalidade dos Tincoãs. Em 1973 gravam o segundo disco produzido por Adelzon Alves, e o primeiro como representantes legítimos da música afro-baiana, este LP é um marco importante da música brasileira, não apenas pela qualidade das músicas, como também pelo arranjo com características de coral feitos a partir de canções oriundas dos terreiros de candomblé, tendo como base apenas quatro instrumentos: violão, atabaque, agogô e cabaça. Este disco também revela o talento dos componentes como compositores, principalmente Mateus e Dadinho, que assinam a maioria das músicas.

Um dos destaques do disco é “Deixa a gira girá”, canção de origem folclórica, adaptada pelo trio com muito talento, e uma das mais executadas quando se apresentavam em público. Merece referencia também “Iansã Mãe Virgem”, “Sabiá roxa”, “Na beira do mar”, “Saudação aos orixás” e “Capela da Ajuda”, que fazem um belo painel da cultura negra do recôncavo baiano. Principalmente a última, que faz referência explícita a uma das poucas construções religiosas da Bahia de estilo católico, mas que cultua e abriga em seu interior rituais da tradição africana.

Com produção musical do maestro Lindolfo Gaya, o LP tornou-se recordista de vendas na ocasião de seu lançamento. Não pelo ineditismo de seu repertório, já que muitos outros discos com temática afro já haviam sido lançados no mercado. O seu diferencial esta na beleza plástica das canções e da perfeita harmonia vocal do grupo, o único no país que conseguiu fielmente traduzir o sentimento e a musicalidade de nossas tradições negras, numa demonstração de afirmação da identidade de uma cultura que nos engrandece e nos faz ver o quanto devemos aprender com ela. Mesmo porque já faz parte de nossa formação, e a ela devemos o privilégio de conviver com esta mestiçagem que tanto nos orgulha e é a responsável pela formação da identidade cultural brasileira. Ouvir o disco dos Tincoãs é reafirmar a certeza de que não seríamos um país tão rico se não fosse a nossa ancestralidade africana, pois ela traduz o mais autentico sentimento de brasilidade que carregamos.

Mas esse texto sobre o primeiro disco dos Tincoãs não poderia terminar sem falarmos também sobre a trajetória ocorrida logo após o seu lançamento.

Em 1975 a primeira grande baixa no grupo ocorre com a morte de Heraldo, depois de gravar um compacto e uma faixa, “Banzo”, no LP da trilha sonora da novela Escrava Isaura. A lacuna foi preenchida com a entrada de Morais, permanecendo por pouco tempo, mas participando do terceiro LP do grupo, “O Africanito”, lançado em 1975. Logo depois, substituindo Morais, foi incorporado ao trio o vocalista Badu, mantendo dessa forma a tradição e a qualidade musical do grupo. No ano de 1977 gravaram um outro disco destacando-se a música “Cordeiro de Nana”, de Mateus e Dadinho

Em 1983 Os Tincoãs foram para Angola para temporada de uma semana em Luanda, e lá se estabeleceram, participando de projetos da Secretaria de Estado da Cultura de Angola, que entre suas prioridades visava identificar valores angolanos na cultura e na música brasileira, além de estabelecer ligações entre o culto angolano e o candomblé praticado no Brasil. Nessa ocasião gravaram o disco Afro Canto Coral Barroco, com a participação do coral dos Correios e Telégrafos do Rio de Janeiro, sob a regência do maestro Leonardo Bruno e produção de Adelzon Alves. Este disco permaneceu inédito, só sendo lançado em 2003, portanto vinte após a sua gravação.

Em 1984 Badu desligou-se do grupo, porém Mateus e Dadinho permaneceram juntos e em 1985 gravaram um disco no Brasil pela gravadora CID, que foi lançado em Angola. No país que abraçaram trabalharam em Luanda, Huambo, Lubango, Benguela, Namibe e Bengo e puderam ver de perto as batalhas que redundaram na guerra pela independência. Com a morte de Dadinho em 2000 o grupo se desfez, mas deixou um legado dos mais primorosos para a música popular brasileira, como um dos principais representantes das raízes de nossa música de origem africana. Discos e músicas inesquecíveis.

Luiz Américo Lisboa Junior

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