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Tulipa Ruiz (2012 – TudoTanto)


Parafraseando a letra de “Ok” (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz), delícia pop do segundo CD de Tulipa Ruiz, a cantora e compositora paulista  tem – enfim –  “tudo para ser aquilo tudo que todo mundo espera”. Eleita a sensação musical de 2010 pela mídia robotizada por conta de superestimado primeiro álbum, Efêmera , a artista cumpre (e supera) as expectativas inevitáveis do segundo disco, Tudo Tanto, nas lojas a partir de 30 de julho de 2012 em edição independente.

A artista refina e encorpa  seu som – provável efeito do conforto financeiro proporcionado pelo patrocínio obtido dentro do projeto Natura Musical – sem quase nunca perder a leveza e o espírito lúdico de sua música, trunfos de seu som. Nos momentos em que endurece e perde a ternura, como na venenosa “Víbora” (Tulipa Ruiz, Criolo, Caio Lopes, Gustavo Ruiz e Luiz Chagas), faixa de tom bluesy em que sobressai a guitarra de Luiz Chagas, a cantora cresce e aponta outras direções musicais, ciente de que tudo está em movimento, como poetiza nos versos de “É” (Tulipa Ruiz), faixa eleita para iniciar os trabalhos promocionais do CD produzido pelo mano Gustavo Ruiz.

Ciente de que é preciso se movimentar para não virar clone de si mesmo, Tulipa abre parcerias, experimenta sonoridades e explora as várias possibilidades de sua voz neste disco gravado em abril nos estúdios Na Cena (SP), Cia. dos Técnicos (RJ) e YB (SP). Os arranjos de cordas e madeiras assinados por Jacques Mathias contribuem para a leveza de temas como “Quando Eu Achar” (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz) – outro hit em potencial, arrematado com coro formado por 16 vozes masculinas – e se revelam inusitados, impedindo que Tudo Tanto soe igual aos zilhões de discos gravados com músicos requisitados para tocar em nove entre cada dez discos do universo indie pop nativo. Mas nem tudo são flores em Tudo Tanto. Em “Like This”, primeira parceria de Tulipa com Ilhan Ersahin, integrante da banda norte-americana de trip-hop Wax Poetic, a artista discute a relação com certa contundência e certa impaciência em primoroso arranjo que flerta com a estética do universo indie. Na sequência, “Desinibida” – primeira parceria de Tulipa com Tomás Cunha Ferreira, músico do grupo português Os Quais – esboça clima bossa-novista que logo se dilui pelas experimentações orquestradas pelas cordas conduzidas pelo recorrente Jacques Mathias. Em sintonia com o início que remete ao clima suave da Bossa Nova, “Desinibida” é a faixa que concentra o núcleo dos músicos cariocas do disco – formado por Kassin (guitarra, lap e steel), Stephane San Juan (bateria), Alberto Continentino (baixo) e Donatinho (teclados). O quarteto fantástico também está reunido em “Script” (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz), faixa de menor poder de sedução. A leveza dá novamente o ar da graça em “Dois Cafés” (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz), outra faixa de grande teor pop, gravada por Tulipa com a voz e a guitarra slide de Lulu Santos.

A letra de “Dois Cafés” prega justamente a leveza como o tempero capaz de adoçar as adversidades cotidianas. De início, “Dois Cafés” dá a impressão de ser canção tribalista – pela harmonização das vozes, similar à do trio formado por Marisa Monte com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown – mas logo o suingue de Lulu dá o tom da faixa. Música dançante, “Expectativa” (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz) reitera a veia pop de Tulipa, bastante aguçada neste álbum. Em contrapartida, “Bom” (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz) cativa mais pelo criativo arranjo de cordas e madeiras – assinado pelo recorrente Jacques Mathias – do que pela música em si. No fim, com “Cada Voz” (Tulipa Ruiz), música já presente em alguns shows da turnê do álbum Efêmera, Tudo Tanto abre caminho para experimentações vocais que confirmam a segurança dessa cantora de voz aguda que cospe veneno na impactante “Víbora”. Entre a flor e o espinho, Tulipa Ruiz desabrocha de vez com ótimo segundo disco que tem tudo aquilo que todo mundo espera.

Por Mauro Ferreira, do Blog Notas Musicais

Dáumload

Tulipa Ruiz (2010 – Efêmera)

Cantora, compositora e desenhista. Participou de shows de nomes como DonaZica, Trash Pour 4, Júnio Barreto, Ortinho, Projeto Cru, Na Roda, Tiê, Nhocuné Soul e Cérebro Eletrônico. Integra, ao lado do pai Luiz Chagas e do irmão Gustavo Ruiz o conjunto Pochete Set. Faz desenhos para livros infantis, agendas, capas de discos e cartazes de shows. Interessa-se por gravações em campo, texturas, ruídos, bordados e cantigas de ninar.