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Rincon Sapiência (2017 – Galanga Livre)

Com a originalidade de suas composições, marcadas por influências das músicas africana, eletrônica, jamaicana e vertentes do rock, desde o ano 2000, o artista traduz em versos inteligentes e sagazes as experiências vividas nas ruas da periferia paulistana desde os anos 80. Abordando questões raciais e sociais no contexto da metrópole, Rincon Sapiência apresenta um rap com clima de positividade, sem prejuízo à postura crítica do discurso, resultado da sua notável fome de rima aliada à sua habilidade nata de jogar com as palavras. Versátil, ele também atua como beatmaker em seus próprios trabalhos.

A universalidade da música e dos temas abordados pelo repertório de Rincon favorecem o seu trânsito em outros círculos que não sejam necessariamente periféricos. Sua forte identidade artística, reforçada por um estilo original, também está presente nos clipes “Elegância”, “Transporte Público”, “Linhas de Soco”, “Profissão Perigo” e “Coisas de Brasil”. Como ator, Rincon contracenou com o ator Wagner Moura no filme “A Busca”, dirigido por Luciano Moura, seguida da participação no filme “Jonas”, dirigido por Lô Polliti, do qual também participaram os rappers Criolo e Karol Conka.

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Caê (2016 – A nave de Odé)

O que me salta aos ouvidos imediatamente neste segundo disco de Caê é sua maturidade e pleno domínio como arranjador, produtor, vocalista e instrumentista. Quantos músicos da sua geração são capazes de assumir tantas funções diferentes e alcançar um resultado tão conciso, polido, fluente, equilibrado e extremamente pop como este “A Nave de Odé”? Preste atenção nas linhas de guitarra e baixo, nas texturas de órgão e mellotron, nas levadas de violão, nas várias vozes dos coros e nos arranjos de sopro… Não é pouca coisa.

Caê mostra-se completamente à vontade ao optar pela combinação e recombinação de elementos rítmicos e melódicos ligados a gêneros brasileiros, jamaicanos e africanos muito diversos: fragmentos de ijexá e de samba de roda baiano, ares e brisas de reggae e dub, tramas de guitarras trazidas do highlife, levadas de afrobeat e de pop angolano, climas e timbres de trilha sonora e soul music encontram-se e desencontram-se com a canção brasileira de tendência minimalista e circular. Tudo alinhavado pela força da musicalidade nascida na África Ocidental e esparramada pelas Américas e pelo Caribe. E é justamente nos momentos mais marcantes do disco que estas linhas e fronteiras tendem a se apagar pra revelar algo fresco que tende a desafiar nomes e classificações.

Em seus arranjos, Caê equilibra com consciência e imaginação o silêncio e a densidade, a diversidade de timbres e texturas, a unidade e concisão da estrutura, tudo a serviço da fluência e clareza das canções, num resultado inegavelmente pop. É uma tapeçaria sutil e muito bem acabada que injeta balanço e vigor à sua personalidade musical já marcada pela doçura e leveza do seu trabalho de composição. Este contraponto entre o impulso visceral da dança e o ar tranquilo de suas canções é uma das belezas e virtudes do disco.

Diante de tudo isto, me pergunto: faixas como “O Caçador e a Flecha”, “Zambê”, “Tão Blue” e “Talismã” não merecem ser veiculadas nas maiores rádios do país? É só o jabá mesmo ou os ouvidos dos programadores estão fechados para uma música que ouse ser acessível e inventiva ao mesmo tempo? Que “A Nave de Odé” retorne ao mundo imenso de onde veio, com toda atenção que lhe é devida.

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Siba (2015 – De Baile Solto)

2015_04_16 Box De Baile SoltoSobre “De Baile Solto”, Siba diz: “No texto, não consegui ir muito longe da “rima, métrica e oração” de minha própria tradição, mas aqui e acolá as palavras se espalham um pouco mais do que o costume, inspirado na elasticidade da música congolesa, que é também a referiencia para as guitarras entrelaçadas, o gosto pela saturação do som, a dança como finalidade auditiva, a vontade de que nunca se acabe, elementos igualmente presentes na música ritual e de rua do Brasil“.

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Claudia Dorei (2014 – inspire)

claudia dorei - inspire

Cantora, instrumentista, compositora, Claudia Dorei gosta de coisas “simples, econômicas, sem muita firula”, como diz. E foi assim que concebeu seu primeiro disco, “Respire”, de 2009, depois de ter caminhado por aí com Denise Stoklos (com quem estudou e trabalhou) e Gerald Thomas (para quem compôs trilhas), além de ter nadado entre Portishead, Björk, Chet Baker, Kruder & Dorfmeister, jazz, hip hop, dub e eletrônica.

Carioca, por um bom tempo radicada em São Paulo, Claudia tem brisa e urgência. Cercada de músicos que catou, preciosamente, como conchas na areia, ela gravou “Respire”, em clima caseiro, com o tempero mágico de Buguinha Dub (da Nação Zumbi) na mixagem. O resultado foram 11 músicas ensolaradas, doces, cheias de espaço, mas também repletas de dramaticidade, como “Gentileza” (homenagem ao profeta Gentileza, lembrado pela celestial pregação “gentileza gera gentileza”) e “Som”, na qual a flauta se enamora do beatbox.

Independente, a cantora e instrumentista recorreu ao formato crowdfunding no começo de 2011 (via a gravadora Embolacha) e, em alguns meses, já tinha arrecadado o suficiente e mais um pouco para gravar as dez músicas que tinha composto, que dariam sequência a “Respire”. Mas para a surpresa da própria artista, seu passo seguinte foi em outra direção. Contaminada pelo vírus da pista e pelas batidas da bass music, ela se juntou ao produtor Cavalaska e criou um personagem, Malika, com o qual gravou o arrojado “One”, lançado no começo de 2012. Inspirada em James Blake, CocoRosie e Björk, Claudia usou Malika para cantar músicas sobre ganância (“Our weapon”), solidão (“Midnight”), viagens interplanetárias (“Elev8”) e novos tempos (“Get together”). “Foi uma espécie de Occupy Claudia Dorei”,explicou ela em entrevista ao jornal “O Globo”. “A Malika tomou conta de mim”.

Passada essa incorporação, Claudia guardou Malika e retomou sua carreira original. No segundo semestre de 2014, lançou “Inspire”, cinco anos depois da estreia com “Respire”. Com 12 faixas inéditas e participações especiais de Anelis Assumpção e do MC Ras Ital, o álbum foi produzido por ela, Thiago Duar e Beto Villares (em duas faixas). Nele, Claudia navegou do samba ao dub reggae, do jazz a cumbia.

Agora em 2015, desde que viu a artista argentina Juana Molina ao vivo, começou a elaborar um show sozinha, onde pudesse soar como uma banda. Resolveu pesquisar seus caminhos e experimentar esse formato em seu som. Comprou pedais de loop, se trancou no estúdio nos últimos meses e finalmente chegou à um set com guitarra, baixo, ukulele, teclado, trompete e beatbox. É com esse rico repertório e variados insrumentos, que ela – novamente radicada no Rio se prepara para uma série de shows pelo país.

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Eddie (2015 – Morte E Vida)

Morte e VidaJuntando blues e samba, frevo e surf music, Caribe e Recife, a banda Eddie chega ao sexto álbum levando o Original Olinda Style à maturidade — sem perder pegada nem frescor

por Ronaldo Bressane*

Eddie — a mais rápida das bandas lentas, ou a mais lenta das bandas rápidas — está de volta. Liderando o Original Olinda Style — frevo no punk, Caribe no mangue —, Fabio Trummer e seus asseclas trazem, em Morte e Vida, uma releitura muito particular do cabralino Morte e Vida Severina. É um álbum solar como a Olinda em que nasceu, nos surfrevos e nas baladas de amor; mas também guarda uma musicalidade enigmática como as esquinas olindenses, seja nos sambas de acento punk, seja nas canções em que o romantismo exibe seu sabor mais amargo.
É como se o álbum se equilibrasse entre a louvação da festa e a crítica social — na verdade, dois pilares em que o grupo se sustenta há 25 anos, quando apareceu com a geração que trouxe ao mundo o manguebeat. As subidas e descidas das ladeiras dão a tônica do Original Olinda Style: euforia e melancolia, lirismo e política convivem na mesma batida e na mesma canção. Trata-se do sexto álbum da banda, o primeiro em quatro anos: Veraneio (2011), Carnaval no Inferno (2008), Metropolitano (2006), Original Olinda Style (2002) e Sonic Mambo (1998).
Os contrários convivem na buena no corpo sonoro da Eddie, onde há espaço para Serge Gainbourg, Chavela Vargas, Sivuca, Sleaford Mods, Luiz Gonzaga, Leonard Cohen, João Gilberto, Nick Cave, Manoel de Barros, Patativa do Assaré e até Xico Sá. O apego à identidade musical brasileira contemporânea, abençoada por íconesda presença de Jorge Mautner e Novos Baianos, coloca o trabalho de Eddie no mesmo universo onde desfilam nomes como Otto, Lucas Santtana, Cidadão Instigado e Criolo.
O som coeso demonstra a consistência de princípios de uma formação unida há 12 anos: Kiko Meira na bateria, Rob Meira no baixo, Alexandre Urêa na percussão e voz, Andret Oliveira no teclado e trompete, Trummer na voz e guitarra. O frontman parou entre março e novembro de 2014 para compor as canções em sua casa em São Paulo. Gravou tudo na voz e violão, enviou aos parceiros da banda, e já em fins de novembro e dezembro a Eddie começou a ensaiar e arranjar as faixas. Gravaram uma pré-produção e no primeiro dia útil de janeiro — pense num mês difícil pra trabalhar em Pernambuco! —, o quinteto se fechou no estúdio Fruta Pão, ali mesmo em Olinda; foram quatros semanas até gravar todas as 11 faixas. Em seguida o álbum foi mixado no Recife pelo usual companheiro Berna Vieira, e, em seguida, masterizado no mítico estúdio El Rocha, em São Paulo, pelo produtor Fernando Sanches Takara.

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Silvério Pessoa (2004 – Bate o Mancá)

CAPASilvério Leal Pessoa, natural da cidade de Carpina, localizada na Zona da Mata Norte, é músico, cantor, compositor, educador e escritor. Iniciou a vida artística se apresentando em espaços do Grande Recife. Em 1995, formou a banda Cascabulho com outros músicos, no auge do Movimento Mangue, com a qual gravou o CD Fome Dá Dor de Cabeça. Após a saída do grupo, em 2005, seguiu carreira solo, lançando diversos álbuns, alguns inspirados na obra de Jacinto Silva e Jackson do Pandeiro. A música de Silvério edita referências populares com rock, hip-hop, punk e intervenções eletrônicas. Em 2006, ganhou o Prêmio TIM de Melhor Cantor Regional. Já se apresentou em várias cidades do Brasil e da Europa e, em 2008, lançou o livro Nômade, pela editora Bagaço. A publicação é uma versão impressa do blog que o artista mantém, com comentários sobre turnês, viagens, encontros e curiosidades.

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Carlos Dafé (1979 – Malandro Dengoso)

Carlos+Dafé+(1979)+Malandro+Dengoso
Compositor. Instrumentista. Cantor. Nascido no subúrbio de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. O pai, José de Sousa, foi funcionário público e tocador de chorinho. A mãe, Conceição Gonçalves, foi poeta e incentivadora da musicalidade dos filhos. Seus irmãos são músicos e compositores: Jorge Badezir (violonista e baixista), Tuninho de Souza (guitarrista e bandolinista), Luiz Carlos (violonista), Paulo César (cantor). O filho, Georgemari Dafé, segue os passos do pai e além de cantar e compor, toca violão, cavaquinho e percussão. A filha Verônica Dafé, estudou canto na Falarte e atuou como cantora e backing vocal em seus shows.

Vindo de família de músicos, aos quatro anos já corrigia alguma nota errada que, por ventura, seu pai ou qualquer dos amigos chorões tivesse cometido. Aos 11 anos já estudava no Conservatório de Música. Aos 14 já tocava acordeon e vibrafone em conjuntos e orquestras. Em 1970, fez turnê com o grupo Fuzi 9, do Corpo de Fuzileiros Naval, por Salvador (Bahia), Porto Rico, Martinica e Curaçau. Multiinstrumentista, toca violão, guitarra, baixo, piano, acordeão e vibrafone.

Sua composição “Um menino, uma mulher”, em parceria com Toninho Lemos, foi canção-tema do filme “Um menino, uma mulher”, estrelado por Jece Valadão. “Bafo quente no salão: som negro na Áfricarioca rolando nas quebradas com Marvin Gaye nas vitrolas, cenário, cidade e selva onde se criou o som do Dafé e de outros cobras black (ou seriam coblas bléque?). Esses malandros espertos, de gargantas ágeis e corações quentes, incendiando os salões, bailões esses neguinhos e negões que se afirmam, com fé em Dafé estão aqui, agora, bailando”.

(Nelson Motta – 1983) “… Por isso eu sou da fé, por isso eu tenho luz, por isso eu sou da fé, da fé que me conduz, por isso eu sou da fé, Dafé e Carlos”. (Trecho da música Dafé e Carlos, composição de Jorge Aragão). “… o Dafé é uma grande expressão da juventude negra brasileira. Um patrimônio da gente que tinha vontade de dançar soul e funk e não tinha lugar para isso… Ele é um cara a quem devo muito, é meu camarada, meu grande educador musical”. (SCHOTT, Ricardo. Na essência do soul). Revista de Domingo, Jornal do Brasil, p.46.).

Em 2010 recebeu do presidente da Câmara Municipal de São Paulo, o vereador Antonio Carlos Rodrigues, o “Título de Cidadão Paulistano”, no Salão Nobre da casa. Neste mesmo ano recebeu do grupo Cultural AfroReggae, do Rio de Janeiro, o “12ª edição do Prêmio Orilaxè” na categoria “Cantor”. O evento ocorreu no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, com apresentação da atriz Fernanda Lima e o ator Johayne Hidelfonso, com narração em off do ator Wagner Moura.

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